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No primeiro depoimento, Josilene disse ter sido assaltada por volta das 23h em um ponto de ônibus. Nesta terça, ela disse que usou o celular às 1h14 para enviar uma mensagem para a filha. O estudante só deixou o trabalho às 1h30. Vídeos mostram universitário trabalhando minutos antes de ser baleado por policial aposentado no Rio
Câmeras de segurança do bar Batuq, onde Igor Melo de Carvalho passou a noite de domingo (23) trabalhando na Penha, Zona Norte do Rio, mostram que ele saiu do local às 1h30, minutos antes de ser baleado pelo policial militar aposentado Carlos Alberto de Jesus.
Os vídeos mostram que o expediente do estudante de publicidade terminou às 1h06. Ele solicitou uma moto por aplicativo, que chegou à 1h30. As imagens mostram Igor colocando o capacete, subindo na garupa e saindo do local a caminho de casa.
Minutos depois, ele foi baleado pelas costas, a cerca de 1,5km de distância do estabelecimento. O mototaxista Thiago Marques Gonçalves, que pilotava, não foi atingido. Igor segue internado em estado grave no Hospital Getúlio Vargas.
Carlos Alberto disse à polícia, primeiramente, que Igor teria roubado o celular da esposa dele, Josilene da Silva Souza, e admitiu a autoria dos disparos.
O policial prestou um novo depoimento nesta terça e mudou a versão, assim como a companheira.
No primeiro depoimento, Josilene disse ter sido assaltada por volta das 23h em um ponto de ônibus. Nesta terça, ela disse que usou o celular às 1h14 para enviar uma mensagem para a filha.
O policial militar da reserva Carlos Alberto de Jesus
Henrique Coelho/g1
A delegacia tem 30 dias para concluir o inquérito. O policial não foi preso em flagrante. Ele e a mulher foram prestar depoimento na Corregedoria da PM no fim da tarde desta terça.
Thiago chegou a ser levado para o presídio em Benfica, na Zona Norte, de onde saiu nesta tarde. Igor estava sob custódia no hospital, onde permanece, em liberdade, em tratamento.
‘Piores horas da vida no presídio’, diz motociclista
O motociclista teve que sair descalço e disse que não deixaram que ele pegasse os chinelos. O jovem está com o corpo machucado devido à queda da moto na hora dos disparos. Emocionado, ele caiu no choro nos braços da mãe e disse que “passou as piores horas da vida no presídio”.
Thiago contou que, na delegacia, a esposa do policial apontou para ele e disse que ele a roubou enquanto ele ajoelhava falando que ela sabia que não era ele. O jovem deve prestar depoimento ainda nesta terça.
Segundo a família, no caminho Igor teria percebido que um veículo seguia a motocicleta. Minutos depois ouviu disparos e caiu da moto. Percebendo estar ferido, Igor conseguiu ligar para colegas de trabalho, que foram até o local e o levaram até o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha.
Os policiais ainda vão analisar imagens de câmeras próximas para ver se alguma delas registra o assalto contra a mulher e avaliar a rota da moto pilotada por Thiago, que iria levar Igor para casa quando foram alvos dos disparos.
‘Indícios totalmente esvaziados’
Na decisão de soltar os dois, em audiência de custódia, a juíza Rachel Assad da Cunha, da 29ª Vara Criminal da Capital, relata os fatos e afirma:
“Portanto, todas as informações indicam que tanto Carlos Alberto quanto Josilene teriam confundido os ora custodiados com os supostos autores do crime de roubo, de forma que os indícios de autoria restam totalmente esvaziados, impondo a imediata soltura dos custodiados.”
A juíza atende ainda a um pedido da defesa e encaminha cópias do processo para a Promotoria de Investigação Penal e a Corregedoria da Polícia Militar, que poderão investigar a conduta do policial da reserva.
Igor, o estudante baleado
Reprodução/Redes sociais
A equipe de reportagem da TV Globo tentou falar com Carlos Alberto, mas o policial não atendeu às ligações.
Igor também trabalhava no portal Vitrine Esportiva. Em nota, o Botafogo desejou uma pronta recuperação para o rapaz.
“Igor participou de inúmeros atendimentos à imprensa realizados pelo Clube e atuou sempre com profissionalismo e respeito com atletas, funcionários e colegas de profissão. Estamos juntos em pensamento positivos! O Clube cobra justiça e elucidação dos fatos!”, disse o clube em suas redes sociais.
Segundo depoimento
Nesta terça-feira, o policial deu outro depoimento na delegacia e mudou sua versão. Inicialmente, na madrugada em que o jovem foi baleado, o PM Carlos Alberto de Jesus afirmou que viu Igor, de camisa amarela e na garupa da moto de Thiago, armado e por isso atirou. Ele diz que sua mulher, Josilene Souza, apontou como a dupla como responsável por roubar seu telefone, entre 1h15 e 1h30.
Em seu segundo depoimento sobre o caso, o policial militar afirmou que pediu para Thiago Marques parar a moto. “Encosta, polícia”, teria dito a ele.
O policial afirmou que, em seguida, o homem que estava na garupa de camisa amarela (que seria Igor Melo) colocou a mão próxima a cintura e realizou um movimento girando seu corpo para a esquerda e após para a direita, supostamente fazendo menção em estar armado.
Depois disso, o policial freou seu veículo, sacou sua arma, calibre 38, e disparou duas vezes.
Thiago, o mototaxista que levava o estudante baleado
Henrique Coelho/g1
‘Resolveram fazer justiça com as próprias mãos’, desabafa prima
De acordo com a prima de Igor, a mulher do PM esteve no Hospital Getúlio Vargas e afirmou que ele não era um dos assaltantes.
Igor é estudante de publicidade e propaganda da faculdade Celso Lisboa. Ele também trabalha no local como inspetor, e, para complementar a renda, é garçom no bar onde pegou o moto por aplicativo.
Os parentes dizem que ele foi atingido pelas costas, passou por uma cirurgia, perdeu o rim e está com o estômago e intestino bastante afetados.
” Uma senhora foi assaltada e ela junto com seu marido, um policial da reserva, resolveram fazer justiça com as próprias mãos. Viram meu primo em cima de uma moto, um homem negro em cima de uma moto, e acharam que poderiam ter algum envolvimento com o assalto”, diz Pâmela.
Igor está internado em estado grave
Reprodução/TV Globo
PM que atirou alega ter visto arma com Igor
No primeiro depoimento, o policial da reserva alegou ter visto uma arma na mão de Igor, que estava na garupa da moto.
Segundo Carlos Alberto, motoristas de outros veículos que estavam no local teriam dito que o motociclista e Igor estariam fazendo um arrastão. Imagens de câmeras de segurança, no entanto, mostram o momento em que Igor subiu na garupa da moto na porta do bar onde trabalha.
O PM da reserva disse ainda que não encontrou o celular da mulher nem a arma que supostamente estaria com Igor.
O que diz a polícia
Em nota, a Polícia Militar informou que agentes foram à Avenida Lobo Júnior, na Penha, para verificar uma ocorrência de invasão a domicílio.
No local, os agentes constataram que dois suspeitos, que trafegavam em uma motocicleta, foram alvos de disparos de arma de fogo efetuados por ocupantes de um veículo desconhecido. Um deles foi atingido e socorrido ao Hospital Estadual Getúlio Vargas.
O caso foi registrado na 22ª DP (Penha). O policial que atirou se apresentou como autor dos tiros e a esposa reconheceu o piloto da moto como um dos envolvidos no roubo do celular dela.
A Polícia Civil não disse por que Igor está internado sob custódia, uma vez que a mulher do PM reconheceu apenas o condutor da moto.
Segundo a direção do Hospital Getúlio Vargas, o estado de saúde de Igor é considerado grave.