
Com uma estrutura de madeira castigada pelos anos, o rancho de pesca do Getúlio, no Campeche, no Sul de Florianópolis, se tornou ao longo das décadas um símbolo cultural e comunitário. À beira da praia, o espaço, que foi construído em 1951, serve como base para pescadores da região e também como centro de iniciativas sociais, culturais e educativas, como aulas de música e projetos com crianças.
A estrutura, no entanto, chegou ao limite da sua capacidade física e, após cinco anos em busca de recursos e projeto, o espaço ganhará uma nova cara em breve.

Rancho de pesca do Seu Getúlio terá reformas estruturais – Foto: Germano Rorato/ND
Rancho de pesca do Seu Getúlio passará por revitalização
A revitalização do rancho será viabilizada, em parte, por uma emenda parlamentar indicada pelo senador Esperidião Amin. O projeto arquitetônico foi elaborado pelos profissionais Ângelo Arruda e Valberto Césio May, e a execução contará com o apoio da Naus Engenharia. A obra será lançada oficialmente no evento de abertura da safra da tainha pelo IGMI (Instituto Getúlio Manoel Inácio), no dia 1º de maio.
Carla Inácio, filha de Seu Getúlio e presidente do instituto que leva o nome do pai, explica que a reforma é um passo necessário para preservar o legado deixado por ele. “Com o crescimento dos projetos e ações, entendemos, desde a criação do instituto em 2020, que era necessário ter um espaço com estrutura renovada, mas sem perder sua essência. Faz aproximadamente cinco anos que começamos a focar nessa busca. Um trabalho intenso, burocrático e com muitas exigências. Mas chegamos lá com muita determinação”, afirma Carla.
Segundo ela, o rancho representa um símbolo da memória coletiva do Campeche. “Ele representa a materialidade de uma visão espetacular do meu pai, o Getúlio. Inspirado pela sabedoria do meu avô, o seu Deca, ele tornou o espaço um ponto de encontro entre pescadores e também de pessoas interessadas na história da pesca artesanal e na conexão com a arte.”
Estrutura atual do rancho de pesca não comporta a demanda
A estrutura atual, entretanto, já não comporta a demanda gerada pelos projetos sociais que ali ocorrem. Administrador do rancho e cunhado de Carla, Ivanir Aroldo Faustino acompanha de perto o desgaste do lugar. “A lateral já cedeu e, como a construção foi feita com sobras de obra, o que conseguimos fazer é passar óleo queimado na madeira para tentar preservar. O telhado já está caindo”, conta.
Além do impacto físico, a falta de espaço limitou a continuidade de atividades como o Música do Rancho da Canoa, que oferece aulas gratuitas de música. Atualmente, as aulas precisaram ser transferidas para o salão paroquial da Igreja São Sebastião devido à insegurança da estrutura.
O projeto Compartilhando Saberes, que transforma uma canoa de garapuvu em sala de aula para ensinar crianças sobre pesca artesanal, também enfrenta limitações. “Hoje, a estrutura já não comporta as três canoas juntas — a Glória, a Glorinha e a Zé Perri”, diz Ivanir.

Ivanir Aroldo Faustino acompanha o desgaste do Rancho de pesca do Getúlio – Foto: Germano Rorato/ND
Projeto estrutural do rancho de pesca
O novo rancho manterá o estilo tradicional, mas com melhorias estruturais, acessibilidade e espaços adequados às atividades comunitárias, conforme explica o arquiteto Valberto Césio May. “Ele foi projetado praticamente nos mesmos moldes do estilo do rancho de pesca tradicional. Mas fizemos um projeto dividido em dois blocos: um com a parte do rancho propriamente dita, onde fica o barco, e outro com apoio logístico, onde haverá espaço para o trator, armazenamento de redes, uma cozinha e dois banheiros com acessibilidade”, explica May.
Entre os dois blocos, haverá uma área de convivência coberta, com pergolado e a capela. “A capela hoje está dentro do rancho, mas no novo projeto ela ficará no espaço entre os dois blocos, criando uma conexão simbólica entre eles. Também ampliamos a altura da estrutura principal e criamos um espaço multicultural para receber estudantes, onde será possível contar a história do Seu Getúlio e da fundação do rancho”, complementa o arquiteto.

Entre os dois blocos, do rancho de pesca do Getúlio, haverá uma área de convivência coberta, com pergolado e a capela – Foto: Germano Rorato/ND
A expectativa do instituto é iniciar a reforma ainda este ano, após a temporada da pesca da tainha, com o apoio de novos parceiros. “Como próximos passos, estaremos lançando a obra no evento de abertura da safra da tainha. Buscamos mais parceiros para concluir toda a obra em 2025. E, assim, os projetos crescem e a memória fica mais viva do que nunca”, reforça Carla.